Um livro, uma obra, que ainda hoje é difícil de definir. Para alguns, “o grande filme neorrealista sobre Lisboa”. Para outros (e subscrevo sem grande reserva) um retrato humano sobre a cidade de Lisboa. Um livro de fotografia onde Victor Palla e Costa Martins, de uma forma absolutamente brilhante, (e criativa) conseguiram uma crítica refletida (e consciente) sobre um país permanentemente “censurado”.
Só por isto trata-se de um livro inovador e pioneiro.
Um livro profundamente documental e revolucionário, em nada ficando a dever, na minha opinião, por exemplo, ao “The American” de Robert Frank, ou “American Photographs” de Walker Evans. Um livro também social, pensado e realizado por dois arquitetos que encontraram na fotografia um complemento e suporte para a arquitetura. Durante três anos (1956-59) tiraram cerca de 6000 fotografias para “fecharem” nas 200 imagens que compõe o livro. Um “poema gráfico” onde se congregam textos e poemas de, por exemplo, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, Fernando Pessoa, António Botto, José Gomes Ferreira, Sebastião da Gama, Jorge de Sena, entre tanto outros.
Também o aspeto de integrar literatura, poesia e fotografia é revelador da transcendência e relevância da obra, não só no contexto nacional, como também (e sobretudo) internacionalmente. Há precisamente 20 anos a obra foi objeto de um primeiro documentário realizado por Luís Camanho e produzido por João Abrunhosa onde se refere queLisboa, Cidade Triste e Alegre é“(…) um exercício de modernidade que cruza disciplinas, estilos e épocas (…)”. Outro aspeto relevante da obra é o facto de ter sido o resultado de um exercício conjunto dos dois autores e colegas de profissão, não se encontrando referências individuais às imagens que integram o livro.
Apenas os textos que acompanham as imagens estão identificados. A tristeza e alegria expressas no livro coexistem no livro de uma forma explicita, mas totalmente fora dos significados literais inerentes aos respetivos conceitos. Não há, portanto, um exagero na alegria e na tristeza, mas antes um equilíbrio inteligente, onde Lisboa paira, genuinamente, entre um desassossego meio-triste e uma ternura que não deixa de ser alegre em si mesma. Por fim, é um livro humanista e, profundamente, humano.
As pessoas, predominantemente pobres e das classes mais baixas, são (re) tratadas com dignidade e com um humanismo, sublimes. Numa palavra, são respeitadas enquanto indivíduos que o são, não sendo, portanto, objeto de pena ou piedade degradantes, mas sim, como pessoas integradas num contexto muito próprio de uma realidade social também ela muito própria. Um livro, como referi, de difícil caracterização. Um livro onde a fotografia é, acima de tudo, uma forma de reflexão crítica e um instrumento subtil de combate a uma realidade social, política e económica profundamente complexas. Um dos livros da minha vida, seguramente.










