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Aqui também há mundo

Nesta primeira edição da revista A Forte Arronches, cumpre sublinhar, em primeira instância, que a minha ligação a esta vila provém de uma raiz afetiva e familiar. Aqui nasci, neste lugar que não só é o meu território de residência, mas também o meu ponto de partida e, invariavelmente, o de regresso. Já fui (e talvez ainda seja) uma das muitas jovens arronchenses que partiram, persuadida pela ideia de que “lá fora é que está o mundo”. E é verídico, o mundo está mesmo lá fora. Mas aprendi, com o tempo e também com a distância, que ele também pode estar aqui, nesta pequena Vila alentejana.

É também por isso que aceitei o convite para fazer parte deste projeto, enquanto colaboradora. Reconheço em mim um traço reivindicativo, não por conforto, mas por pertença a uma comunidade e por responsabilidade cívica. E creio que muitos arronchenses partilham o mesmo impulso, o de dizer, de propor e de pensar conjuntamente.

E esta revista propõe-se precisamente a isso, a ser um espaço onde se alinha cultura, expressão artística, ciência, história e memórias contadas por quem outrora viveu esta Vila. Isto pode representar um coral de perspetivas, o que é de basilar relevância nos dias que correm, porque quando se narra apenas um lado da história, algo decididamente fica por contar.

Neste artigo introdutório, cumpre expor paralelamente os temas que me movem, sendo que todos o fazem, uns mais do que outros. Não sendo, contudo, apologista da “tudologia”, diria que me movem, em particular, os temas sobre os quais incidi os meus estudos e também aqueles que me debruço diariamente em busca de informação.

Ao longo da minha trajetória académica e de investigação, tenho articulado o meu interesse especial pela análise das dinâmicas das Relações Internacionais, no seu sentido mais lato, privilegiando o enquadramento do Direito Internacional e dos Direitos Humanos, assente numa matriz conceptual da Ciência Política. Lado a lado com esses interesses, surge também, por consequência, uma simpatia pela reflexão sobre problemáticas de natureza nacional, havendo claramente uma primazia na preocupação das suas expressões na esfera local.

Creio que, neste contexto, importa referir o envolvimento, desde tenra idade, em movimentos juvenis e também o interesse pela escrita de artigos como este, uns para jornais e outros apenas para a gaveta. Talvez movida pelo sentimento de necessidade de escuta, pertencendo a uma geração que tantas vezes é colocada em primeiro plano em discursos e em último nas decisões (e certamente marcada pelo cariz inquieto que a juventude nos dá). É, ainda, com esse espírito que aqui escrevo.

Aliás, para este primeiro artigo, aproveito para fazer alusão a um poema escrito por um comerciante Arronchense, o qual não sei identificar a data, mas será de perto dos anos de 1975/76, e cujo o mote é precisamente “juventude põe-te alerta”1.

Curiosamente, a juventude desses dias pertence à geração que hoje dizessas mesmas palavras à minha. Não é tema novo, no decurso das últimas duas décadas, que o mapa demográfico de Arronches exibe lacunas que se traduzem em ausências tangíveis. Quando a massa jovem se afasta, leva consigo um acervo que não se restitui pelo correio, seja a capacidade de inovar ou a audácia de interrogar o dogma do “sempre se fez assim”. E por isso digo, o maior risco de uma vila desprovida de juventude não é o silêncio das ruas e dos bares, é o silêncio das ideias!

É por isso que projetos novos fazem falta, porque a renovação geracional não é meramente a chegada de pessoas novas a um lugar antigo, mas sim esse mesmo lugar conservar a capacidade de sonhar por si próprio. Porque, se a geração que parte não retorna, o que se perde não é apenas a presença física, mas o próprio futuro. E cuidar do futuro constitui o ato mais profundo de apreço que uma comunidade pode nutrir por si mesma.

Por
Mafalda Flores

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